Ômega-3 na esteatose: evidências atuais sobre redução de gordura hepática

14 de janeiro de 2026

 

O papel do ômega-3 na saúde hepática tem sido amplamente estudado nas últimas décadas, mas as evidências mais recentes, reunidas na meta-análise publicada em 2025 na ScienceDirect, reforçam de forma sólida seu potencial terapêutico na redução da gordura hepática em pacientes com esteatose hepática não alcoólica (NAFLD).

 Os ácidos graxos ômega-3 — especialmente o EPA (ácido eicosapentaenoico) e o DHA (ácido docosa-hexaenoico) — são conhecidos por suas propriedades anti-inflamatórias e moduladoras do metabolismo lipídico. No contexto da NAFLD, sua ação vai além da prevenção: eles têm mostrado capacidade de diminuir o acúmulo de gordura e melhorar a função hepática, mesmo sem perda de peso significativa.

Como o ômega-3 age no fígado

A eficácia do ômega-3 está diretamente relacionada à sua atuação nas vias metabólicas do fígado. Esses ácidos graxos modulam a lipogênese hepática, reduzindo a produção de novos triglicerídeos e estimulando a oxidação de ácidos graxos, o que significa que o fígado passa a queimar mais gordura e a acumular menos.

Além disso, o ômega-3 influencia a expressão de genes envolvidos no metabolismo lipídico, como o PPAR-α, que regula a utilização de gordura como fonte de energia. Esse efeito molecular se traduz em redução da esteatose intra-hepática e melhora dos marcadores de função hepática, como ALT e AST.

Outro ponto central é o efeito anti-inflamatório. O EPA e o DHA competem com o ácido araquidônico nas membranas celulares, diminuindo a síntese de prostaglandinas e citocinas inflamatórias. Isso contribui para frear a progressão da esteatose para esteato-hepatite (NASH), etapa em que há inflamação e dano celular mais intenso.

De modo geral, o ômega-3 atua de forma sistêmica, equilibrando o metabolismo dos lipídios, reduzindo triglicerídeos plasmáticos e melhorando a sensibilidade à insulina — todos fatores cruciais na prevenção e regressão da gordura hepática.

O que mostram as evidências mais recentes

A meta-análise publicada em 2025 na ScienceDirect compilou dados de 27 estudos clínicos randomizados, abrangendo mais de 2.500 pacientes com diagnóstico confirmado de NAFLD. Os resultados apontam de forma consistente que a suplementação com ômega-3, em doses entre 1,5 e 4 gramas diárias, promove redução significativa da gordura hepática avaliada por ultrassonografia, ressonância magnética e biópsia.

De acordo com a análise, os participantes que utilizaram ômega-3 apresentaram redução média de 25% a 35% no conteúdo de gordura hepática, em comparação ao grupo controle. Além disso, observou-se melhora importante nos níveis séricos de ALT e AST, indicativos diretos de melhora da função hepática.

Um dado interessante é que os benefícios ocorreram mesmo sem perda de peso relevante. Isso reforça que o efeito do ômega-3 é metabólico, e não apenas consequência da redução calórica. Pacientes com IMC estável também apresentaram regressão parcial da esteatose, indicando ação direta sobre as vias hepáticas de síntese e armazenamento de gordura.

Os estudos de maior duração (acima de 24 semanas) mostraram resultados ainda mais expressivos, sugerindo que a continuidade da suplementação é determinante para consolidar os efeitos terapêuticos. Em média, quanto maior o tempo de uso e a adesão à dose, maior a redução da gordura hepática observada.

Fontes alimentares e suplementação segura

Embora o ômega-3 possa ser obtido pela alimentação, o consumo médio da população está muito abaixo das quantidades necessárias para alcançar efeitos terapêuticos. As principais fontes alimentares são os peixes de água fria, como salmão, sardinha, atum e cavala, além de sementes de linhaça, chia e nozes, que fornecem o precursor vegetal ALA (ácido alfa-linolênico).

No entanto, o ALA precisa ser convertido em EPA e DHA no organismo — um processo pouco eficiente em humanos. Por isso, a suplementação com cápsulas de óleo de peixe ou óleo de algas é frequentemente indicada para atingir as doses estudadas em ensaios clínicos.

Segundo a meta-análise, a dose mais eficaz situa-se entre 2 e 3 gramas de EPA + DHA por dia, divididas em duas tomadas. A suplementação deve ser feita com orientação médica, especialmente em pacientes que utilizam anticoagulantes ou apresentam distúrbios de coagulação.

Além dos suplementos, adotar uma alimentação rica em gorduras boas e pobre em ultraprocessados potencializa os efeitos do ômega-3. Reduzir o consumo de óleos vegetais refinados e aumentar o uso de azeite de oliva e peixes gordurosos são passos simples que já promovem impacto metabólico significativo.

Leia também: Quanto de perda de peso reverte a esteatose? Metas realistas e impacto em NASH e fibrose

Ômega-3 e o futuro do tratamento da esteatose

As evidências recentes indicam que o ômega-3 deve ser considerado parte integrante do manejo nutricional da esteatose, e não apenas um coadjuvante. Sua ação anti-inflamatória, hipolipemiante e hepatoprotetora o posiciona como uma das terapias mais seguras e bem toleradas atualmente disponíveis.

Além da melhora histológica e bioquímica, há benefícios sistêmicos importantes. A suplementação regular está associada à redução dos níveis de triglicerídeos, melhora da resistência à insulina e até à diminuição do risco cardiovascular — fator especialmente relevante, já que muitos pacientes com NAFLD também apresentam síndrome metabólica.

Os pesquisadores destacam, contudo, que o uso do ômega-3 deve estar inserido em um contexto de reeducação alimentar e mudanças de estilo de vida. Ele potencializa os efeitos de uma dieta equilibrada, mas não substitui hábitos saudáveis. A sinergia entre dieta, atividade física e suplementação é o que garante resultados duradouros.

O futuro do tratamento da NAFLD caminha para uma abordagem integrativa, e o ômega-3, pela robustez das evidências, é um dos pilares dessa estratégia. Seu uso racional, baseado em doses eficazes e acompanhamento profissional, representa um avanço significativo na prevenção da progressão para NASH e fibrose hepática.

Um cuidado simples que transforma o fígado

Incluir o ômega-3 na rotina é um passo pequeno, mas com grande impacto na saúde do fígado. Seja por meio de peixes gordurosos, sementes ou suplementos de qualidade, essa gordura boa ajuda o corpo a encontrar equilíbrio.
Cuidar do fígado é cuidar do metabolismo como um todo — e o ômega-3 é um aliado acessível, seguro e cientificamente comprovado para quem deseja prevenir e reverter a esteatose. Converse com seu profissional de saúde e comece hoje mesmo a nutrir o seu fígado com o que ele realmente precisa: equilíbrio, constância e boas gorduras.

Referência:
Meta-analysis: Effects of Omega-3 Fatty Acids on Hepatic Fat Reduction in Non-Alcoholic Fatty Liver Disease (NAFLD). ScienceDirect, 2025.

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