Obesidade e Doenças Inflamatórias Intestinais: o que a ciência recomenda?

4 de setembro de 2025

Pacientes com Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), como é o caso da Doença de Crohn e da Retocolite Ulcerativa, por exemplo, tradicionalmente eram associados à perda de peso e desnutrição. Contudo, esse cenário vem mudando consideravelmente. O aumento da prevalência de obesidade na população geral também tem atingido pacientes com DII, trazendo novos desafios à prática clínica no tratamento dessas doenças.

Estudos recentes revelaram que entre 15% e 40% dos indivíduos com DII também convivem com excesso de peso ou obesidade. Essa coexistência é preocupante, pois a obesidade não é uma doença isolada — ela modifica a resposta inflamatória, impacta o tratamento medicamentoso, altera o microbioma intestinal e agrava os desfechos clínicos.

Por essa razão, é necessário compreender como a obesidade afeta o curso das Doenças Inflamatórias Intestinais e como atuar na linha de frente de cuidados para esses pacientes. Este artigo traz as principais evidências científicas sobre essa inter-relação, apresentando uma interpretação crítica dos achados e propondo estratégias nutricionais para o manejo integrado.

Obesidade: um estado pró-inflamatório que afeta o intestino

Diferente do que muitos pensam, a obesidade é muito mais do que apenas o acúmulo de gordura: ela configura um estado inflamatório crônico de baixo grau, sustentado pela liberação contínua de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α, IL-6 e leptina. Essas moléculas sinalizadoras amplificam a inflamação sistêmica e local, agravando quadros de inflamação intestinal.

Além disso, a obesidade também favorece o desequilíbrio na microbiota intestinal, conhecido como disbiose. Isso ocorre porque o padrão alimentar inflamatório associado à obesidade — rico em ultraprocessados, gorduras saturadas e açúcares simples — altera a diversidade microbiana e favorece a colonização por espécies patogênicas.

Essas alterações contribuem para diversas situações, como:

  • Aumento da permeabilidade intestinal;
  • Maior ativação do sistema imune entérico;
  • Maior produção de endotoxinas e radicais livres;
  • Exacerbação da inflamação.

Esses efeitos são relevantes para quem tem Doença de Crohn ou Retocolite, pois essas doenças já envolvem uma disfunção da barreira intestinal e da regulação imune.

O que mostram os estudos científicos?

Uma das perguntas mais importantes é: a obesidade realmente aumenta o risco de desenvolver Doença de Crohn ou Retocolite Ulcerativa? A resposta parece ser sim, principalmente no caso da Doença de Crohn.

Um estudo de coorte com mais de 300 mil mulheres norte-americanas mostrou que aquelas com IMC elevado aos 18 anos apresentavam mais que o dobro de risco de desenvolver Doença de Crohn na vida adulta (Khalili et al., 2015).

Outro estudo publicado no Inflammatory Bowel Diseases Journal sugeriu que o tecido adiposo visceral atua como um órgão endócrino, influenciando diretamente a patogênese da doença.

No caso da Retocolite Ulcerativa, a associação é menos clara. Algumas evidências sugerem um efeito neutro, enquanto outras apontam que o excesso de gordura pode agravar os sintomas e aumentar o risco de hospitalizações.

Impacto da obesidade na evolução e no tratamento das Doenças Inflamatórias Intestinais

Os estudos comprovaram que a obesidade apresenta um impacto considerável na evolução e tratamento das DII. Esses estudos demonstram que pacientes com DII e obesidade apresentam:

  • Maior atividade inflamatória persistente;
  • Maior taxa de hospitalizações e cirurgias intestinais;
  • Menor resposta a medicamentos biológicos;
  • Risco elevado de desenvolver estenoses e fístulas.

Além disso, a presença de obesidade também está associada a uma farmacocinética alterada, comprometendo a eficácia de tratamentos como infliximabe e adalimumabe.

Diagnóstico nutricional: como avaliar obesidade em pacientes com DII?

Existem alguns fatores que devem ser avaliados nesse processo diagnóstico, como os índices antropométricos: a avaliação deve ir além do IMC, incluindo:

  • Circunferência da cintura;
  • Relação cintura-quadril;
  • Composição corporal por bioimpedância ou DEXA.

Obesidade sarcopênica

Muitos pacientes com DII apresentam obesidade sarcopênica, ou seja, excesso de gordura corporal com perda de massa muscular. Essa condição piora o quadro inflamatório e prejudica a resposta imunológica, agravando o prognóstico.

 

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Condutas nutricionais baseadas em evidência

A dieta anti-inflamatória foi apontada em estudos recentes como um valioso aliado na modulação do curso das DII. A dieta mediterrânea está entre os padrões mais estudados e benéficos, sendo rica em:

  • Ácidos graxos mono e poli-insaturados;
  • Fibras solúveis;
  • Compostos bioativos antioxidantes, como os encontrados em vegetais escuros e frutas vermelhas.

A redução de ultraprocessados também é amplamente indicada, com estudos apontando uma associação direta entre o consumo elevado desses alimentos e o aumento do risco de desenvolver DII. Um estudo publicado em 2025 na Current Gastroenterology Reports mostrou que dietas ricas em emulsificantes e adoçantes artificiais comprometem a integridade da mucosa intestinal.

A implementação de uma intervenção dietética que promova a restauração da eubiose intestinal é fundamental, incluindo:

  • Uso de prebióticos;
  • Fibras fermentáveis;
  • Suplementação de probióticos (principalmente em fases de remissão).

Todas essas estratégias devem ser orientadas por um profissional qualificado para garantir sua correta aplicação e segurança durante o tratamento.

A avaliação contínua é essencial para adaptar a conduta nutricional de acordo com a fase da doença:

  • Fase ativa: abordagem mais conservadora, com alimentos de fácil digestão;
  • Fase de remissão: reintrodução progressiva de fibras, variedade alimentar e controle de peso.

Considerações especiais

Existem fatores que devem ser considerados no tratamento de DII em pacientes com obesidade. Esses pacientes podem apresentar maior risco de depressão, ansiedade e isolamento social. Por isso, o papel do nutricionista vai além do plano alimentar, envolvendo escuta ativa, empatia e encaminhamento para apoio multidisciplinar.

No caso de crianças e adolescentes, a obesidade pode prejudicar o crescimento linear e o desenvolvimento puberal. É fundamental acompanhar o estado nutricional com atenção redobrada e orientar pais e cuidadores sobre escolhas alimentares e sinais de alerta.

Conclusão

A obesidade representa um importante fator de risco e complicação para pacientes com Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa. O excesso de gordura corporal agrava a inflamação intestinal, dificulta o controle clínico e afeta negativamente a resposta ao tratamento.

Por esse motivo, é fundamental adotar uma abordagem integrada, baseada em evidência, garantindo o manejo nutricional adequado desses pacientes. O nutricionista deve ser um aliado estratégico no cuidado, promovendo alimentação anti-inflamatória, monitoramento antropométrico contínuo e suporte especializado.

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Referências bibliográficas

  1. Khalili H, Ananthakrishnan AN, Konijeti GG, et al. Measures of Obesity and Risk of Crohn’s Disease and Ulcerative Colitis. Inflamm Bowel Dis. 2015;21(2):361–368. DOI: 10.1097/MIB.0000000000000289
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