Vitamina D para prevenção de infecções respiratórias: ainda vale a pena?

18 de dezembro de 2025

 

A vitamina D há muito deixou de ser vista apenas como um nutriente ósseo. Nas últimas duas décadas, ela se consolidou como um modulador do sistema imunológico, capaz de influenciar a resposta a infecções virais e bacterianas. Durante a pandemia de COVID-19, seu papel ganhou destaque, impulsionando uma avalanche de estudos e suplementações.
 

Mas, passada a emergência global, a ciência seguiu investigando o tema com rigor. A meta-análise atualizada publicada em 2025 no The Lancet Diabetes & Endocrinology revisitou o conjunto de ensaios clínicos sobre a suplementação de vitamina D e sua eficácia na prevenção de infecções respiratórias agudas. O resultado é um retrato mais equilibrado e realista: os benefícios existem, mas são modestos e dependentes do contexto clínico e dos níveis basais de vitamina D.

 

 

O que a nova meta-análise mostrou

A análise publicada pelo grupo de pesquisadores internacionais reuniu dados de 43 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 75 mil participantes de diferentes faixas etárias e regiões geográficas. O objetivo foi reavaliar se a suplementação de vitamina D realmente reduz o risco de infecções respiratórias, à luz das evidências mais recentes e com metodologia aprimorada.

Os resultados mostraram que a suplementação está associada a uma redução média de 12% no risco relativo de infecções respiratórias agudas — um efeito estatisticamente significativo, porém clinicamente modesto. O benefício foi mais evidente entre pessoas com deficiência sérica (< 25 nmol/L) e naquelas que utilizaram doses diárias ou semanais regulares, em vez de megadoses esporádicas.

Por outro lado, indivíduos com níveis adequados de vitamina D não apresentaram melhora relevante com a suplementação. A resposta também foi mais consistente em grupos vulneráveis, como idosos institucionalizados e pacientes com doenças respiratórias crônicas, incluindo DPOC e asma.

Esses resultados atualizam o consenso anterior e trazem uma mensagem importante: a vitamina D não é uma solução universal, mas pode ter valor preventivo quando usada de forma direcionada e racional.

Por que a vitamina D influencia o sistema imunológico

O papel imunomodulador da vitamina D é sustentado por mecanismos biológicos bem descritos. Ela atua como um hormônio esteroide que se liga a receptores (VDR) presentes em células do sistema imune, como linfócitos T, B e macrófagos. Essa interação regula a expressão de genes envolvidos na resposta inflamatória e na produção de peptídeos antimicrobianos, como a catelicidina, essencial na defesa contra vírus e bactérias respiratórias.

Além disso, a vitamina D contribui para reduzir a hiper-resposta inflamatória, equilibrando a liberação de citocinas pró e anti-inflamatórias. Esse efeito é particularmente relevante em infecções virais graves, nas quais a inflamação excessiva agrava o dano pulmonar.

Outro aspecto importante é sua influência sobre a integridade da barreira epitelial. A vitamina D ajuda a manter a função das células epiteliais das vias aéreas, dificultando a entrada de patógenos. Em conjunto, esses mecanismos explicam por que baixos níveis séricos estão associados a maior suscetibilidade a gripes, resfriados e infecções pulmonares.

Contudo, o efeito biológico não se traduz automaticamente em benefício clínico amplo. A variabilidade individual — incluindo genética, dieta, exposição solar e comorbidades — interfere na resposta à suplementação. Por isso, a abordagem deve ser personalizada e baseada em evidência, não em prescrição genérica.

Doses, regimes e limitações práticas

A meta-análise de 2025 reforçou que a regularidade da suplementação é determinante. Os estudos com melhor resultado utilizaram doses fisiológicas diárias (de 800 a 2000 UI) ou semanais (de 5.000 a 10.000 UI), enquanto esquemas com megadoses mensais ou trimestrais mostraram pouco ou nenhum benefício.

Esse achado reforça a importância de manter níveis séricos estáveis, em vez de oscilações intensas. O ideal é atingir concentrações entre 50 e 75 nmol/L, faixa considerada segura e suficiente para a função imunológica. Acima disso, não há ganhos adicionais comprovados — e o excesso pode até trazer riscos, como hipercalcemia e calcificação vascular.

Outro ponto abordado é a origem da vitamina D. A síntese cutânea pela exposição solar continua sendo a principal via natural, mas depende da latitude, estação, pigmentação da pele e hábitos de vida. Em regiões com baixa insolação ou em populações idosas, a suplementação é uma alternativa segura para manter níveis adequados.

As limitações dos estudos também foram destacadas. Muitos ensaios apresentaram heterogeneidade quanto à dose, à duração e à definição de infecção respiratória. Além disso, poucos avaliaram desfechos clínicos graves, como hospitalizações ou mortalidade. Portanto, embora o efeito protetor exista, ele deve ser interpretado com cautela e dentro de um contexto de prevenção multifatorial.

O papel clínico atual da suplementação

À luz das novas evidências, o papel da vitamina D na prevenção de infecções respiratórias pode ser descrito como complementar, não principal. Ela deve ser considerada parte de uma estratégia global de saúde — ao lado de alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e vacinação.

Para pacientes com deficiência documentada, a suplementação continua fortemente recomendada, pois melhora não apenas a função imunológica, mas também a saúde óssea e muscular. Já para indivíduos saudáveis com níveis normais, a suplementação rotineira não mostrou benefício clínico relevante.

O artigo do The Lancet também destacou a importância da triagem laboratorial direcionada. Avaliar os níveis séricos antes de iniciar a suplementação permite um uso mais racional, evitando tanto a deficiência quanto o excesso. A meta é restaurar o equilíbrio, não ultrapassar limites fisiológicos.

Em suma, a vitamina D ainda tem valor — mas sua utilidade está em corrigir deficiências reais, não em servir como escudo generalizado contra infecções. A ciência está mais refinada e, com ela, a recomendação clínica se torna mais precisa e individualizada.

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O futuro da vitamina D na imunidade

O interesse pela vitamina D está longe de diminuir. A nova fase da pesquisa busca compreender como diferentes combinações de nutrientes e estilos de vida potencializam sua ação. Estudos recentes têm explorado sinergias entre vitamina D, ômega-3 e probióticos, sugerindo efeitos mais amplos sobre a imunidade e a inflamação.

Há também investigações sobre polimorfismos genéticos nos receptores da vitamina D, que podem explicar por que algumas pessoas respondem melhor à suplementação do que outras. Esse avanço abre caminho para uma abordagem verdadeiramente personalizada, em que a dose e a estratégia de reposição sejam adaptadas ao perfil genético e metabólico individual.

Outra linha promissora é o impacto da vitamina D em doenças autoimunes e condições inflamatórias crônicas, como asma e DPOC. Nessas populações, a suplementação preventiva pode ter benefícios duplos — reduzindo tanto exacerbações respiratórias quanto inflamação sistêmica.

A mensagem da ciência mais recente é clara: a vitamina D não é panaceia, mas é relevante. Seu papel está em ser parte de uma rede de fatores que sustentam a imunidade e o equilíbrio do organismo. Cuidar dos níveis de vitamina D é, portanto, um gesto de cuidado com o corpo como um todo.

Fortaleça sua imunidade com ciência e equilíbrio

A prevenção de infecções respiratórias começa muito antes de qualquer sintoma. Manter bons níveis de vitamina D é um investimento simples, acessível e baseado em evidência — especialmente para quem tem pouca exposição solar.
Busque orientação médica, faça a dosagem sérica e, se necessário, inicie a suplementação adequada. O segredo está na regularidade, não na megadose.
Cuidar da imunidade é cuidar do cotidiano: um pouco de sol, boa alimentação, sono reparador e equilíbrio são os verdadeiros pilares da saúde respiratória duradoura.

Referência:
Updated Meta-analysis: Vitamin D Supplementation and Prevention of Acute Respiratory Infections — Evidence from Randomized Controlled Trials. The Lancet Diabetes & Endocrinology, The Lancet, 2025.

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